Doing Business in Brazil

5. Governança corporativa no cenário brasileiro

21/08/26

A Governança Corporativa no Brasil vem passando por um processo consistente de amadurecimento, impulsionado pela crescente integração do país à economia global, pela evolução do mercado de capitais e pela demanda de investidores, empresas e stakeholders por transparência, integridade, responsabilidade e sustentabilidade.

Para investidores e empresas estrangeiras, compreender o ambiente brasileiro de governança é mais do que uma questão de conformidade: é uma ferramenta para avaliar riscos, estruturar investimentos, estabelecer parcerias e identificar oportunidades de negócios com maior previsibilidade e segurança.

1. Visão Geral

No Brasil, Governança Corporativa pode ser compreendida como o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo sócios, acionistas, administradores, conselhos, órgãos de fiscalização e demais stakeholders.

Seu propósito é promover criação sustentável de valor, aprimorar o processo decisório, fortalecer a gestão de riscos e assegurar que a atuação empresarial esteja alinhada a padrões de ética, integridade e responsabilidade.

A agenda brasileira ganhou maior relevância a partir dos anos 1990, especialmente com a criação do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), e evoluiu em conexão com referências e padrões internacionais de governança, incluindo as diretrizes da OCDE e do G20.

Atualmente, a governança está presente não apenas na estrutura societária, mas também em temas estratégicos como compliance, gestão de riscos, sustentabilidade, proteção de dados, segurança da informação, inteligência artificial e relacionamento com stakeholders.

2. Princípios Fundamentais

A governança brasileira está tradicionalmente estruturada sobre quatro princípios reconhecidos internacionalmente:

  • Transparência: disponibilização de informações relevantes de forma clara, tempestiva e acessível;
  • Equidade: tratamento justo e isonômico dos diferentes stakeholders, com especial atenção à proteção dos acionistas minoritários;
  • Prestação de Contas (Accountability): responsabilização dos administradores por suas decisões e pela condução dos negócios;
  • Responsabilidade Corporativa: consideração dos impactos econômicos, sociais e ambientais da atividade empresarial e de sua contribuição para a geração sustentável de valor.

Na prática, esses princípios ultrapassam a esfera societária e passam a influenciar diretamente a estratégia, os controles internos, a gestão de riscos, os programas de integridade e a tomada de decisões empresariais.

3. Estrutura Regulatória Brasileira

O ambiente de governança corporativa brasileiro é sustentado por um conjunto relevante de normas, instituições e mecanismos de autorregulação.
Entre os principais instrumentos e instituições estão:

  • Lei das Sociedades por Ações (Lei nº 6.404/1976), que estabelece regras para a organização societária, direitos e deveres de acionistas e administradores e mecanismos de fiscalização e divulgação de informações;
  • Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável pela regulação, fiscalização e desenvolvimento do mercado de valores mobiliários;
  • Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), referência nacional na disseminação e desenvolvimento de boas práticas de governança;
  • B3, que estabelece requisitos diferenciados de governança para companhias listadas em determinados segmentos de negociação;
  • Normas e padrões internacionais, que vêm sendo progressivamente incorporados às práticas empresariais brasileiras.

Esse arcabouço proporciona aos investidores estrangeiros importantes mecanismos de transparência, responsabilização e proteção, contribuindo para uma avaliação mais estruturada dos riscos e das oportunidades associados a investimentos no país.

4. Estrutura de Governança nas Empresas

A estrutura de governança varia de acordo com o porte, a natureza, a estrutura societária e o grau de complexidade de cada organização.

Entre os principais órgãos e mecanismos encontram-se:

  • Assembleia Geral;
  • Conselho de Administração;
  • Conselho Fiscal;
  • Diretoria Executiva;
  • Comitês de assessoramento, como Auditoria, Riscos, Pessoas e Sustentabilidade;
  • Estruturas de Auditoria Interna, Compliance e Gestão de Riscos;
  • Secretaria de Governança.

A adequada definição de competências e responsabilidades cria freios e contrapesos, fortalece a independência das decisões e reduz riscos decorrentes de conflitos de interesses ou de concentração excessiva de poderes.

Para investidores estrangeiros, compreender essa estrutura é especialmente relevante em operações de investimento, joint ventures, M&A e formação de alianças estratégicas.

5. Governança como Instrumento de Estratégia e Criação de Valor

A governança corporativa deixou de ser percebida exclusivamente como uma estrutura de controle e passou a ocupar posição estratégica na condução dos negócios.

Empresas mais maduras vêm incorporando à sua agenda:

  • avaliação integrada de riscos;
  • mapeamento e aprimoramento de estruturas de governança;
  • definição clara de papéis e responsabilidades;
  • indicadores de desempenho;
  • planos de sucessão;
  • avaliação da efetividade dos órgãos de governança;
  • agendas de curto, médio e longo prazo.

Essa abordagem permite que a governança contribua diretamente para qualidade das decisões, resiliência empresarial, acesso a capital e sustentabilidade do negócio.

Para empresas estrangeiras que ingressam no Brasil, a adoção de estruturas de governança desde as fases iniciais da operação pode representar uma importante vantagem, reduzindo custos de adaptação e facilitando a integração com padrões globais de gestão.

6. Evolução da Agenda de Governança

A agenda brasileira vem incorporando temas que refletem as principais transformações do ambiente empresarial global.

Entre eles destacam-se:

  • ética e integridade;
  • diversidade e inclusão;
  • sustentabilidade e impactos socioambientais;
  • inovação e transformação digital;
  • inteligência artificial;
  • segurança cibernética;
  • transparência e relacionamento com stakeholders;
  • composição e diversidade dos Conselhos de Administração.

O fortalecimento e a diversificação dos Conselhos contribuem para decisões mais qualificadas, ampliação de perspectivas e maior capacidade de resposta diante de cenários de incerteza.

Para investidores internacionais, essa evolução aproxima progressivamente as práticas brasileiras das expectativas globais de governança e sustentabilidade.

7. Normas Internacionais Aplicáveis (ABNT ISO 37000:2022)

O Brasil também acompanha a evolução dos padrões internacionais de governança por meio da ABNT NBR ISO 37000, que apresenta orientações para a governança de organizações.

Entre os temas contemplados estão:

  • propósito organizacional;
  • geração sustentável de valor;
  • supervisão e tomada de decisões;
  • liderança;
  • gestão de riscos;
  • desempenho;
  • prestação de contas;
  • engajamento das partes interessadas;
  • responsabilidade social.

A adoção desses referenciais contribui para aproximar práticas empresariais brasileiras de modelos reconhecidos internacionalmente, aspecto particularmente relevante para grupos multinacionais que precisam harmonizar suas estruturas globais com as operações locais.

8. Governança e Agenda ESG

A agenda ESG ganhou relevância significativa no ambiente empresarial brasileiro, especialmente diante da posição estratégica do país em temas como biodiversidade, transição energética, agronegócio, recursos naturais e desenvolvimento sustentável.

Esse cenário cria oportunidades em setores como:

  • energias renováveis;
  • agronegócio sustentável;
  • infraestrutura;
  • tecnologia limpa;
  • economia de baixo carbono;
  • biodiversidade;
  • créditos de carbono;
  • soluções voltadas à transição energética.

Ao mesmo tempo, a crescente relevância do ESG aumenta a necessidade de estruturas robustas de governança, capazes de assegurar qualidade das informações, transparência, gestão de riscos e efetividade dos compromissos assumidos.

Assim, para investidores internacionais, o Brasil apresenta simultaneamente desafios e oportunidades: de um lado, a necessidade de compreender riscos socioambientais e regulatórios; de outro, o potencial de participação em uma economia em processo de transformação.

9. Governança, Riscos e Compliance

A integração entre Governança, Gestão de Riscos e Compliance (GRC) tornou-se um dos principais elementos de uma estrutura corporativa moderna.

No Brasil, essa integração assume especial relevância diante da complexidade regulatória e da crescente expectativa do mercado em relação a programas efetivos de integridade.

Entre os riscos que podem ser mitigados por estruturas adequadas estão:

  • corrupção e fraude;
  • conflitos de interesses;
  • riscos regulatórios;
  • inconsistências contábeis e financeiras;
  • riscos operacionais;
  • riscos reputacionais;
  • riscos relacionados a terceiros e parceiros de negócios.

Para investidores estrangeiros, uma estrutura de GRC bem estabelecida pode representar um importante indicador da maturidade operacional e institucional da empresa, especialmente em processos de due diligence, M&A, private equity e joint ventures.

10. Tendências e Oportunidades para Investidores Estrangeiros

a) Expansão de setores estratégicos

A evolução das práticas de governança contribui para o desenvolvimento de setores nos quais confiança, transparência e conformidade são elementos essenciais, incluindo:

  • mercado de capitais;
  • bancos e fintechs;
  • infraestrutura e logística;
  • energia;
  • saúde;
  • tecnologia e inovação.

A combinação entre crescimento setorial, inovação e maior maturidade regulatória cria oportunidades relevantes para investidores que estejam preparados para navegar pelo ambiente jurídico e institucional brasileiro.

b) Desenvolvimento do mercado de capitais

A evolução da governança contribui para o fortalecimento do mercado de capitais e para a ampliação das alternativas de financiamento e investimento.

Nesse contexto, ganham relevância:

  • ofertas públicas;
  • emissões de dívida;
  • fundos de investimento;
  • private equity e venture capital;
  • investimentos institucionais;
  • estruturas de financiamento sustentável.

Para investidores internacionais, esse desenvolvimento amplia os canais de acesso ao mercado brasileiro e diversifica as alternativas de alocação de capital.

c) Joint ventures, M&A e investimentos estratégicos

Empresas com estruturas de governança mais maduras estão mais bem posicionadas para participar de operações sofisticadas e transações cross-border.

Em operações de M&A, joint ventures e investimentos estratégicos, a existência de estruturas claras de governança pode facilitar:

  • processos de due diligence;
  • identificação e mensuração de riscos;
  • definição de direitos e responsabilidades;
  • mecanismos de resolução de conflitos;
  • integração pós-investimento;
  • alinhamento entre investidores e administradores.

A governança, nesse contexto, deixa de ser apenas um elemento de controle e passa a funcionar como infraestrutura para a realização de negócios.

d) Governança como diferencial competitivo

Em um mercado de dimensões continentais e elevada diversidade setorial como o brasileiro, investidores que combinam capital, conhecimento do mercado local e padrões internacionais de governança encontram melhores condições para estruturar operações sustentáveis no longo prazo.

A governança pode ser, portanto, um importante diferencial competitivo: não apenas porque reduz riscos, mas porque aumenta a qualidade das decisões, fortalece a confiança entre parceiros e cria condições para o crescimento sustentável.

11. Considerações Finais

O Brasil oferece um ambiente empresarial de grande escala e diversidade, acompanhado por um processo contínuo de evolução de suas estruturas de governança corporativa.

Para empresas e investidores estrangeiros, o desafio não está apenas em compreender as regras brasileiras, mas em transformar governança em uma ferramenta estratégica para fazer negócios no país.

Estruturas robustas de governança podem contribuir para maior previsibilidade, transparência e eficiência, além de facilitar investimentos, joint ventures, operações de M&A e relações de longo prazo com parceiros locais.

Nesse cenário, conhecer o ambiente brasileiro e, ao mesmo tempo, preservar padrões internacionais de governança é uma combinação estratégica para quem pretende investir, operar ou expandir negócios no Brasil.

Mais do que uma exigência regulatória, a governança corporativa deve ser compreendida como parte da infraestrutura necessária para construir negócios resilientes, responsáveis e capazes de gerar valor sustentável em um dos mercados mais relevantes da América Latina.


Autora:Renata Assalim Fernandes
Head das Áreas de Contratos, Compliance e Propriedade Intelectual do escritório De Vivo, Castro, Cunha e Whitaker Advogados.

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