Doing Business in Brazil

1.1. Destaques do Brasil

17/08/26

Brasil em perspectiva

O Brasil fechou 2025 com PIB de R$ 12,7 trilhões, cerca de US$ 2,3 trilhões, o que o mantém entre as dez maiores economias do mundo e na primeira posição da América do Sul e da América Latina (IBGE). Com 8,51 milhões de km², o país ocupa 48% do território sul-americano. Com 213,4 milhões de habitantes (estimativa do IBGE para 1º de julho de 2025), é o sexto país mais populoso do planeta.

O investimento direto no país somou US$ 77,7 bilhões em 2025, o maior valor em sete anos (Banco Central do Brasil), e o Brasil figura entre os cinco principais destinos mundiais de investimento estrangeiro direto (UNCTAD).

Das reformas à implementação

A base institucional dessa economia foi construída em três ondas de reforma. Entre os anos 1990 e 2000, o Plano Real, o regime de metas de inflação, o câmbio flutuante e a Lei de Responsabilidade Fiscal estabilizaram os preços e disciplinaram o orçamento, enquanto privatizações e concessões abriram a infraestrutura ao capital privado. Desde 2016, uma terceira rodada alterou as regras de alocação de recursos públicos e de coordenação entre agentes privados: reforma trabalhista e da previdência, autonomia do Banco Central, novos marcos de saneamento, licitações, falências e garantias, e a infraestrutura financeira digital do Pix e do Open Finance.

Em 2026, a fronteira deslocou-se da aprovação para a execução. As principais reformas já saíram do Congresso e estão em fase de implementação, cujo estágio a Tabela 1 resume.

Tabela 1 – Reformas estruturais selecionadas e estágio de implementação (2026)

Reforma Estágio em 2026
Regime fiscal: do teto de gastos ao arcabouço (EC 95/2016; LC 200/2023) Em vigor, com metas anuais de resultado primário
Reforma trabalhista (Lei 13.467/2017) Consolidada; núcleo mantido desde 2017
Reforma da previdência (EC 103/2019) Consolidada; regimes estaduais e municipais ajustados
Marco do saneamento (Lei 14.026/2020) Em implementação; concessões e PPPs em curso, metas de universalização para 2033
Recuperação judicial e falências (Lei 14.112/2020) Consolidada
Pix e Open Finance (2020) Operacionais; infraestrutura pública digital
Autonomia do Banco Central (LC 179/2021) Consolidada; primeiro ciclo completo de juros sob mandatos fixos
Nova lei de licitações (Lei 14.133/2021) Regime único das contratações públicas desde 2023
Reforma tributária do consumo (EC 132/2023; LC 214/2025) Em transição de 2026 a 2033; CBS integral a partir de 2027

Fonte: Congresso Nacional; base de atos normativos da Pezco Economics.

 

Para quem opera no Brasil, a mudança de maior consequência prática é a tributária. Em 2026, os novos tributos sobre o consumo rodam em fase de teste, com alíquotas de 0,9% (CBS, federal) e 0,1% (IBS, subnacional) compensáveis nos tributos atuais. Em 2027, a CBS passa à alíquota integral, PIS e Cofins são extintos, o Imposto Seletivo entra em vigor e o IPI é zerado, exceto para a Zona Franca de Manaus. A substituição de ICMS e ISS pelo IBS corre até 2033. O desenho aproxima o sistema brasileiro de um IVA moderno, reduz a cumulatividade e desloca a tributação para o destino. Pelo desenho aprovado, a mudança preserva o nível da arrecadação, hoje equivalente a 33% do PIB em impostos e contribuições sociais (dado de 2024 das Estatísticas Fiscais do Governo Geral, IBGE), e altera a sua estrutura. No curto prazo, exige das empresas adaptação de sistemas de apuração, contratos e precificação.

O FMI projeta crescimento de 2,4% em 2026 e de 2,2% em 2027, ritmo compatível com as estimativas de crescimento potencial pós-reformas, na faixa de 2,0% a 2,5% ao ano. Como referência, entre 2017 e 2019, antes da maturação dessas mudanças, a economia crescia em média 1,4% ao ano.

A conjuntura de curto prazo: aterrissagem sob juros altos

A economia cresceu 2,3% em 2025, após 3,4% em 2024, acumulando média de 3,3% ao ano no quinquênio 2021–2025 (IBGE). A desaceleração tem assinatura cíclica e está associada ao aperto monetário. A Selic subiu a 15% ao ano em junho de 2025, o maior nível desde 2006, e os setores mais sensíveis a juros perderam tração: a indústria de transformação variou −0,2%, a construção, +0,5%, e o comércio, +1,1% no ano. Na direção oposta, a agropecuária (+11,7%) e as indústrias extrativas (+8,6%) sustentaram a expansão. O padrão de crescimento liderado pela oferta, tese das edições anteriores deste caderno, persiste; o que mudou foi o ciclo de demanda.

Pela ótica da demanda, o investimento é o componente mais sensível ao juro. A formação bruta de capital fixo cresceu 2,9% em 2025 e 0,4% no acumulado em quatro trimestres encerrado em março de 2026, e o consumo das famílias avançou 1,3% em 2025, em condições de crédito mais restritivas. A taxa de investimento alcançou 17,1% do PIB em 2025 e a poupança bruta, 14,4%. A necessidade de financiamento externo resultante, de 2,7% do PIB, foi mais que coberta pelo ingresso de investimento direto (IBGE; Banco Central). As exportações seguiram na contramão do ciclo doméstico, com alta de 6,2% em 2025 e de 7,6% no acumulado até o primeiro trimestre de 2026 (IBGE).

O mercado de trabalho opera no nível mais apertado da série histórica. A taxa de desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em junho de 2026, a menor para o período desde o início da série, em 2012, e a massa real de rendimentos alcançou R$ 380 bilhões (IBGE). A combinação de emprego recorde e atividade em desaceleração explica parte da cautela do Banco Central no ritmo de corte dos juros.

A inflação convergiu para dentro da meta. O IPCA fechou 2025 em 4,26%, a menor taxa anual em seis anos, e acumulava 4,44% em 12 meses até julho de 2026, abaixo do teto de 4,50%. Essa convergência permitiu ao Copom iniciar em 2026 o ciclo de redução da Selic, que estava em 14,00% ao ano em agosto, patamar que ainda implica juro real elevado. O câmbio acompanhou a melhora: o dólar caiu de R$ 6,18 para R$ 5,47 ao longo de 2025, valorização de 11% do real e o melhor desempenho anual da moeda em uma década.

O ponto de atenção está nas contas públicas. O governo central fechou 2025 com déficit primário de R$ 61,7 bilhões, dentro da meta estabelecida pelo arcabouço fiscal (Tesouro Nacional), e a dívida bruta do governo geral passou de 78,7% do PIB em dezembro de 2025 a 81,9% em junho de 2026 (Banco Central), refletindo o custo de rolagem em um período de juros elevados. A estabilização dessa trajetória é hoje o principal desafio macroeconômico do país.

O Brasil no rearranjo do comércio global

A corrente de comércio (exportações mais importações) subiu de 24,7% do PIB em 2014 para 35,3% em 2025, e as exportações alcançaram o recorde de US$ 349 bilhões no ano (MDIC). A abertura reflete os acordos firmados desde 2016 e a posição do país na oferta mundial de alimentos, minério de ferro e petróleo.

O novo ambiente tarifário nos Estados Unidos testou essa inserção sem revertê-la. Os Estados Unidos elevaram a tarifa sobre produtos brasileiros a 50% em agosto de 2025 e recuaram com listas de exceção a partir de novembro. Após decisão da Suprema Corte contra a base legal das tarifas globais, fixaram em julho de 2026 uma tarifa específica de 25%, com exclusão de carne, café, suco de laranja, aeronaves e minérios. A negociação bilateral segue aberta. Sob esse regime, as exportações mantiveram o crescimento de 6,2% registrado no ano, resultado que sugere redirecionamento de destinos e demanda firme pelos produtos em que o Brasil é competitivo.

Para as relações Brasil–Suíça, a mudança central de 2026 está nos acordos com a Europa. O acordo Mercosul–EFTA, assinado em setembro de 2025 no Rio de Janeiro, foi ratificado pelo Brasil e pelo Uruguai em meados de 2026. Na Suíça, o processo de aprovação segue o rito parlamentar: após votação apertada (96 a 86) no Conselho Nacional em junho de 2026, a matéria está no exame do Conselho dos Estados, e o calendário pode incluir referendo. O acordo UE–Mercosul, assinado em dezembro de 2025, aguarda manifestação do Tribunal de Justiça da União Europeia, esperada para o fim de 2027. Concluídas as etapas de aprovação, o acordo com a EFTA eliminará as tarifas sobre cerca de 96% das exportações suíças ao Mercosul em um horizonte de até quinze anos, com reduções tarifárias nas duas direções do comércio.

 

Tabela 2 – Brasil–Suíça em números

Indicador Valor
Comércio bilateral (2024) CHF 4,77 bilhões: exportações suíças de CHF 3,13 bi (farmacêuticos, químicos, máquinas, instrumentos de precisão) e importações de CHF 1,64 bi (metais preciosos e produtos agrícolas)
Posição do Brasil na América Latina Cerca de 25% do comércio da Suíça com a região; primeiro parceiro
Estoque de investimento suíço no Brasil (2024) US$ 38 bilhões pelo critério do investidor imediato, 5,7% do estoque europeu no país
Fluxo de investimento suíço (2024) US$ 2,5 bilhões em participação no capital, exclusive lucros reinvestidos; a Suíça está entre as três principais origens, com Estados Unidos e Países Baixos
Empregos gerados por empresas suíças (2024) Cerca de 93,5 mil

Fontes: Departamento Federal de Relações Exteriores da Suíça (DFAE); Banco Central do Brasil, Relatório de Investimento Direto 2025. O estoque medido pelo SNB, de CHF 15,4 bilhões, difere do dado do BCB por critério estatístico (posição bilateral no país versus investimento suíço no exterior).

Os desafios no horizonte

O primeiro desafio é fiscal. Com dívida bruta acima de 80% do PIB e juro real alto, estabilizar a relação dívida/PIB exige a elevação gradual dos resultados primários prevista no arcabouço. O governo que tomar posse em janeiro de 2027 conduzirá essa agenda, qualquer que seja o resultado da eleição de outubro de 2026.

O segundo é operacional. Em 2027, o novo sistema tributário opera em escala real pela primeira vez, com a CBS integral convivendo com ICMS e ISS até 2033. A calibragem da alíquota de referência e o ritmo da regulamentação tendem a definir o custo de conformidade do primeiro ano, com efeito direto sobre caixa e preços das empresas.

O que está contratado em lei, como a transição tributária, as metas do arcabouço e os marcos setoriais, não depende do ciclo político; a velocidade da consolidação fiscal e a ambição da agenda comercial, sim. Disso decorre a leitura para 2027: o ambiente de negócios brasileiro dependerá menos de aprovar leis novas e mais de executar as que existem. No caso do acordo com a EFTA, a conclusão dos ritos de aprovação definirá quando os benefícios tarifários passam a valer para as empresas dos dois lados.


Autor: Matheus Lazzari Nicola
Pezco Economics

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